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O Espiritismo do Professor Hippolyte

Como mesas que giram explicariam o milenar mistério sobre a continuidade da vida após a morte?

O Espiritismo do Professor Hippolyte

Por Ednei Procópio

 

O verdadeiro conhecimento se descortina
à vista dos que creem no impossível!

— Edgard Armond

 

A importância dos percursores, mais ou menos contemporâneos ao professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, é tão iminente quanto todos os demais livres pensadores, antes dele, que registraram ideias filosóficas a respeito da continuidade da vida após a morte, das possibilidades quase que infinitas das vivências múltiplas e do acesso ao conhecimento a respeito das vidas regressas.

O Professor Hippolyte não é percursor do ineditismo em torno do que ele diferenciava espiritualismo, em contraponto ao novo espiritismo proposto; e ele próprio, inclusive, me parece, fora vítima de uma vaidade ao aceitar de um dos mentores com quem teve contato a ideia de usar, mais tarde, a alcunha de Allan Kardec. Em vez de fazer como, por exemplo, o escritor e médico britânico Arthur Conan Doyle: o de 'dar a cara a tapa', para usar um termo popular, estampando nas capas de seus livros o seu próprio nome e correndo o risco de ver toda a sua carreira médica e literária se desfarelando.

O Professor Hippolyte usou um pseudônimo porque escritores europeus sempre mantiveram a cultura no uso deste artificio para se esconderem por detrás da difamação alheia, afinal, os jornais franceses, como o L'Illustration, eram impiedosos. O mesmo ocorreu com o Professor Hippolyte. Embora possa a muitos parecer um exagero, não teria ele titubeado em usar seu próprio nome na capa d“O Livro dos Espíritos”? Com receio de que fosse chacoteado por seus amigos e familiares mais próximos, quando seu conceito a respeito do Espiritismo ainda não havia ganhado as páginas dos tabloides de sua época? Muitos podem afirmar que estou exagerando, ou que tal informação careceria de fontes, mas a verdade é que alcunha “Allan Kardec” é em si é um misticismo que nenhum catedrático kardecista gostaria de admitir.

Embora os antecessores do Professor Hippolyte no tema estivessem presentes, quase que como testemunhas oculares, da gênese kardecista, eles são mais presentes por estarem tentando compreender em tempo real, em sua própria época, as manifestações espirituais que dariam base para o surgimento do próprio kardecismo. Todo o material didático do Professor Hippolyte a respeito do assunto deixa claro que determinadas manifestações até então inexplicáveis seriam na verdade compreendidas a luz da Ciência e da Filosofia. Tudo isso numa época em que o Espiritismo ainda não era considerado uma doutrina que acompanharia de modo páreo a religião do Cristo.

A filosofia espiritista, ou espiritualista, todos nós sabemos, remota as culturas orientais e estão distantes no tempo e no espaço até do próprio surgimento do Cristianismo. A ciência, a filosofia e a religião egípcia, hindu, indiana, chinesa, japonesa, tibetana, africana, e tantas outras, anteciparam o Espiritismo Kardecista em todos os sentidos. Menos talvez naquele que se tornaria o baluarte do Cristianismo revivido. Mesmo assim, não creio que se deve colocar o Espiritismo como uma revelação num modelo de trindade, como vem fazendo em nossa época algumas correntes dentro da doutrina. Em meu ver, falta um pouco de humildade aqueles que afirmam que o Espiritismo seria a terceira revelação, precedida após a segunda revelação feita pelo Cristo, e da primeira feita por Moisés.

Moisés, que conduziu seu povo pelo deserto, não fez nenhuma nova revelação, apenas descortinou para seus contemporâneos os códigos civis necessários para a manutenção da ordem entre os hebreus. Somente o Cristo é quem verdadeiramente nos revelou um mundo novo, e o que foi revelado nos trouxe uma nova História.

A obra de um dos livros de Arthur Conan Doyle sobre o Espiritualismo, pelo menos como ele a compreendia à sua época, inspirada, por sua vez, em uma percepção anglo-saxônica, foi publicada em 1918. O título da obra é “The New Revelation: My Personal Investigation of Spiritualism” ou “The New Revelation”, em tradução para o português, “A Nova Revelação”. Pesquisem, se não puderem ler a obra, pois fica claro nela que Arthur Conan Doyle deixa, por sua vez, também claro que a pesquisa é dele, é pessoal, é sua visão sobre o assunto.

Contemporâneo ao Professor Hippolyte, enquanto estes aventurava a explicar a existência do Espírito, o escritor Arthur Conan Doyle também estava as voltas para compreender todo o fenômeno metafísico espírita a sua frente e, por isso, guarda importância nessa gênese e deve ter seu nome certificado pelo nascente Espiritismo.

Conan Doyle, na década de 1880, travou o seu primeiro contato com o espiritualismo de sua época. E é quase certo que o Professor Hippolyte lera seus escritos sobre o assunto. Lembrando que não foi apenas o escritor Arthur Conan Doyle quem se interessou pelo tema. Por volta da mesma época Victor Hugo e até mesmo Gerard de Nerval, um dos autores mais importantes da literatura francesa, pesquisaram e até se tornaram crentes no assunto.

Quando a gente percebe que diversos intelectuais se debruçaram em pesquisas para tentar explicar aos leitores um pouco do conceito filosófico do nascente Espiritismo, é que a gente percebe que a contribuição das tais mesas girantes tem uma importância até menor diante da imensidão de conhecimentos trancafiados no ‘inacesso’ da história humana. A contribuição das mesas para o Espiritismo, nesse sentido, seria tão importante quanto o grão de areia para toda a areia da praia.

Se você isolasse um grão de areia da praia e o mostrasse para alguém que nunca vira uma praia, nem pessoalmente e nem por fotografia ou pela tevê, seria mais difícil para aquela pessoa compreender a imensidão de grãos que podemos encontrar em uma tarde de verão numa praia de veraneio.

Se o Espiritismo é o Cristianismo revivido então porque não iniciar sua gênese com os conhecimentos, por exemplo, que o Mestre Platão nos trouxe, sem precisar fazer demonstrações públicas de mesas exibidas? E é exatamente isso que o Professor Hippolyte tentou fazer deixando de lado o fetiche com as tais mesas girantes que na época causaram frisson praticamente em toda Europa. Quando nos deparamos, no entanto, com as obras escritas pelo Professor Hippolyte é que percebemos, finalmente, o quanto ele foi longe com suas impressões sobre o tema.

Não que os episódios das mesas não fossem importantes. A questão é que, para os positivistas, mesas não giram, mesas não falam, mesas não dançam. Mesas, enquanto objetos inanimados, quando menos podem apenas servir de ferramentas para os espíritos que, de algum modo, tentam se manifestar àqueles que se sentam ao redor delas; e colocam suas mãos sobre elas e esperam que elas se movimentem ou digam algo que possam acalmar suas angústias. Aliás, será que algum espírita dos nossos tempos realiza esse processo? Não, não o faz, não faz porque não importa fazer, e porque “O Livro dos Médiuns” alerta não para o ridículo perante o público expectador, mas para o perigo de tal ação e tarefa diante da espiritualidade inferior.

O Espiritismo do Professor Hippolyte

Salão parisiense com pessoas ao redor de uma mesa girante (L'Illustration, 1853)

 

E todas as experiências do Mestre Jesus que comprovam indubitavelmente a questão Espírita? Desde o episódio de almas menores que são empurradas por porcos num abismo, ou até a cura de Damaris quando todos pensavam que essa já estivesse morta. Assim como para os descrentes da época do Professor Hippolyte, não adianta, hoje em dia, mostrar as pessoas apenas o milagre, é preciso mostrar quem e como os milagres são feitos. Parece que isso seria suficiente para torná-los fortes diante de sua própria fé. Mas nós sabemos que não é preciso girar mesas para fazer as pessoas terem fé, os conhecimentos de como as coisas funcionam após a morte já seriam suficientes para alimentar e saciar sua curiosidade.

O Professor Hippolyte analisou as manifestações das mesas girantes como qualquer curioso: incrédulo! Hippolyte foi Tomé de seu tempo. E só acreditou no que vira porque já havia se formado um código comunicacional, entre os próprios aventureiros, entre o espírito que se manifestava e as testemunhas presentes. Das primeiras observações do Professor Hippolyte é que nasceram os estudos ao redor dos fenômenos. Os códigos já existiam. O Professor Hippolyte não codificou nada, na verdade ele fez exatamente o que havia aprendido com o René Descartes na academia:

  • Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade e sua justificação.
  • Verificar a verdade, a boa procedência daquilo que se investiga — aceitar o que seja indubitável, apenas. Esse passo relaciona-se muito ao cepticismo.
  • Análise, ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário.
  • Síntese, ou elaboração progressiva de conclusões abrangentes e ordenadas a partir de objetos mais simples e fáceis até os mais complexos e difíceis.
  • Enumerar e revisar minuciosamente as conclusões, garantindo que nada seja omitido e que a coerência geral exista.

O Professor Hippolyte não planejou seu cânone. O cânone é que se viu necessário surgir, e ser planejado, diante aos novos conhecimentos descortinados a luz da sua própria ciência e filosofia. A doutrina espírita veio depois, não como consequência, mas como sequencia.

Enquanto as irmãs Fox estavam entretendo pessoas ricas na América do Norte, o jovem e pedagogo Hippolyte estava se dedicando à luta por uma maior democratização do ensino público na França. Somente uma década depois que o caso das irmãs Fox já estava caindo na incredulidade da elite americana, através de seus próprios jornais sensacionalistas, é que Hippolyte começou a ouvir falar nas tais mesas girantes.

O caso das irmãs Fox se iniciou em março de 1848, no pequeno povoado de Hydesville, nos Estados Unidos da América do Norte e, definitivamente, não são foram primeiros fenômenos espíritas dos tempos modernos, embora tenha se tornado um caso mais famoso e emblemático para ser usado como exemplo. Antes, durante e depois do caso das irmãs Fox ocorreram manifestações que poderiam representar melhor o prelúdio do advento da chamada Doutrina Espírita e não nos deixaria a impressão de que tudo não passou de um mero acaso.

Precisamos colocar todos esses fatos em uma linha de tempo se não quisermos confundir os nossos leitores fazendo-os pensar que o caso das irmãs Fox tem relação direta com a brincadeira das mesas girantes na Europa. São eventos isolados nas brumas do tempo e espaço, embora muitos kardecistas se esforcem sempre para chamar a atenção para aquele que seria o canonizador da Doutrina Espírita.

Hoje entendo porque o Espiritismo ainda é tratado como algo místico. É porque muito de sua gênese é exposta fora de sua real sequencia e significado. E é difícil para quem está iniciando os estudos compreender e assimilar tudo isso, e colocá-los em seu devido lugar. A ideia de que Elias seria João Batista, ou como a conversa do aluno Nicodemos com o Mestre Jesus, por exemplo, é que, em meu ver, como preceitos básicos, poderiam dar maior base para o advento do Espiritismo.

O véu das verdades se descortina sobre aqueles que pesquisam por conta própria, mas não os torna mais ou menos crédulos ou crentes em Deus. Queremos formar espíritas realmente conhecedores da verdade, pensantes, ou pretendemos doutrinar novos adeptos? Se quisermos apenas doutrinar, todo um conhecimento fora de uma sequencia lógica serve bem. Mas se quisermos formar espíritas melhores, precisamos melhorar a história da real gênese do Espiritismo. Mesam que giram não farão isso por nós.

 

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