O mercado editorial global atravessa um momento de inflexão histórica que transcende as revoluções tecnológicas anteriores. Diferentemente da transição do manuscrito para o impresso, ou do impresso para o digital (eBooks), a atual revolução silenciosa provocada pela Inteligência Artificial (IA) não altera apenas o suporte ou a distribuição, mas reconfigura a própria ontologia tanto da criação literária quanto da economia do livro.
O que observo não é apenas uma automação de tarefas mecânicas, mas a entrada de sistemas algorítmicos no santuário da criatividade humana, desafiando conceitos seculares de autoria, originalidade e curadoria.
A compreensão deste fenômeno exige, preliminarmente, uma distinção técnica fundamental entre duas categorias de tecnologia que operam neste espaço: a IA Horizontal e a IA Vertical.
A IA Horizontal refere-se aos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) generalistas, como o ChatGPT (OpenAI), Claude (Anthropic) e Gemini (Google). Estes sistemas possuem um conhecimento enciclopédico vasto, treinados em praticamente todo o corpus textual da internet, o que lhes confere versatilidade para redigir desde receitas culinárias até códigos de programação. Contudo, essa amplitude resulta muitas vezes em superficialidade quando aplicada a contextos específicos.
Em contrapartida, emerge a IA Vertical, a verdadeira força motriz da transformação editorial. Estes são sistemas especializados, treinados ou finamente ajustados (fine-tuned) com dados e regras específicas do nicho literário e editorial. Estes agentes especializados compreendem a estrutura de um arco narrativo, as nuances de um gênero literário específico (como a ficção científica hard ou o romance de época) e os fluxos de trabalho de uma editora. A IA Vertical não alucina genericamente; ela opera como um especialista, entendendo contextos de manuscritos, terminologias do setor e as expectativas do mercado leitor.
A promessa destas tecnologias oscila entre a utopia da aumentação humana — onde a máquina atua como um copiloto incansável que elimina o bloqueio criativo e democratiza a publicação — e a distopia da substituição, marcada pela homogeneização cultural, pela canibalização de direitos autorais e pelo domínio monopolista de grandes corporações tecnológicas (as Big techs) sobre o acervo cultural da humanidade.
Neste meu relatório disseco exaustivamente essas dinâmicas, analisando como a Inteligência Artificial Literária reescreve as funções de cada ator do ecossistema do livro: os Escritores, que se tornam artesãos digitais; as Editoras, que buscam eficiência em meio a batalhas jurídicas; as Livrarias, confrontadas pela curadoria algorítmica; e os Leitores, cuja experiência de leitura torna-se ativa e interrogativa.

Escritores
A figura do escritor, historicamente romantizada como o gênio solitário em luta com a página em branco, está sendo radicalmente redefinida. A emergência da IA na escrita criativa não sinaliza o fim da autoria humana, mas sinaliza para evolução para um modelo de colaboração híbrida e simbiótica. O autor contemporâneo deixa de ser apenas o gerador de texto para se tornar o curador, o diretor e o editor de uma inteligência generativa que opera como uma extensão de sua própria imaginação.
A Superação do Bloqueio Criativo e a Ideação Assistida
O obstáculo mais paralisante para qualquer escritor, o bloqueio criativo, encontra na IA um antídoto poderoso. Ferramentas de Brainstorming Infinito permitem que autores gerem dezenas de premissas, plot twists (reviravoltas) e conceitos de construção de mundo em segundos. O processo de ideação deixa de ser um esforço isolado de memória e associação para se tornar um diálogo dinâmico com uma base de dados que contém, virtualmente, todos os tropos narrativos já criados.
Ferramentas como o Sudowrite exemplificam essa nova capacidade. Não foquemos nela como um caso isolado mas como um exemplo de como a IA Literária expande nosso universo de esrita. A funcionalidade de Brainstorm do Sudowrite não entrega apenas ideias aleatórias; ela atua como um parceiro que sugere ganchos de trama e detalhes de personagens baseados no contexto que o autor já forneceu. O sistema aprende as preferências do escritor, refinando as sugestões para que se alinhem progressivamente ao estilo da obra em desenvolvimento.
Para que a gente não pense que se trata de um serviço específico, isoladod o mundo, outras plataformas, como o Writesonic e o GravityWrite, utilizam modelos avançados como o GPT-4 para estruturar narrativas complexas. O GravityWrite, por exemplo, é destacado por sua capacidade de criar esboços de capítulos detalhados, garantindo que a estrutura da obra — seja um conto ou um romance épico — mantenha coesão e fluxo narrativo antes mesmo de a primeira frase ser escrita. O Writesonic, por sua vez, foca na expansão de enredos e na criação de diálogos naturais, permitindo que o autor experimente diferentes tons e linguagens para atingir seu público-alvo com precisão.
Mas não importa se hoje é Sudowrite, Writesonic ou GravityWrite; eu sei por experiência própria no ramos de eBooks que essas iniciativas em breve desaparecem. Mas a ideia que elas trouxeram para o mundo não, porque são funcionalidade que agregam valor e resolvem dores.
Engenharia de Personagens: A Solução para a Amnésia Contextual
Um dos desafios técnicos mais críticos na escrita de narrativas longas com auxílio de IA é a amnésia contextual; se você quiser se aprofundar nesse assunto busque por janela de contexto. Modelos de linguagem possuem uma janela de contexto limitada, o que significa que tendem a esquecer detalhes estabelecidos nos primeiros capítulos à medida que a história avança. Personagens podem mudar inexplicavelmente de cor de olhos, motivação ou até de nome. Para combater isso, desenvolveu-se uma metodologia rigorosa de criação de personagens consistentes.
Causalidade Psicológica Simulada
A consistência começa na psicologia. Em vez de criar fichas de personagens estáticas com listas de qualidades e defeitos, a técnica recomendada envolve o uso da IA para simular causalidade psicológica. O autor deve instruir a IA a criar elos causais entre o passado do personagem e seu comportamento presente.
Por exemplo, um prompt avançado não pediria apenas um vilão leal. Ele pediria à IA para “explicar por que a maior força deste personagem (lealdade) é também a fonte de sua maior fraqueza (obediência cega), baseando essa dinâmica em um evento traumático específico de sua adolescência“. É isso que cria um núcleo psicológico robusto. A IA, ao entender a causa do comportamento, consegue prever de forma mais consistente como esse personagem reagiria em futuras cenas, evitando contradições comportamentais.
O Dossiê Digital (Story Bible)
A solução técnica definitiva para a continuidade é a criação de um Dossiê Digital ou Story Bible (Bíblia da História). Ferramentas especializadas como o Sudowrite (com seu recurso Story Engine) e o Novelcrafter (com o recurso Codex) permitem que o autor armazene todas as verdades fundamentais sobre o universo da obra.
Este dossiê funciona como uma memória externa permanente. Quando a IA é solicitada a escrever uma nova cena, ela consulta primeiramente este repositório para garantir que as descrições, motivações e relações entre personagens estejam alinhadas com o que foi definido anteriormente. É a fonte da verdade que permite a escrita de sagas longas e complexas sem a perda de coerência.
Você não precisa de uma assinatura do Sudowrite ou Novelcrafter (que são Inteligências Artificiais Literárias) para criar o dossiê do seu livro; você pode, por exemplo usar sua conta do seu ChatGPT ou do seu Gemini e verticalizar suas ferramentas nesse mesmo sentido. O que eu quero dizer é que você pode pegar uma IA Horizontal (genérica) e verticalizar ela para ela ela aja como sua Inteligência Artificial Literárias; tal como o Sudowrite, Writesonic, GravityWrite ou o Novelcrafter.
Engenharia de Prompt Baseada em Persona
Para extrair profundidade literária dos modelos, utiliza-se a técnica de Persona-based Prompting. Em vez de solicitar uma descrição genérica, o escritor comanda a IA a assumir o papel de um psicólogo forense experiente ou de um crítico literário cínico para analisar ou descrever um personagem. Essa mudança de perspectiva força o modelo a acessar vocabulários e estruturas de raciocínio mais sofisticadas, enriquecendo a textura da narrativa. O refinamento é iterativo: se a IA devolve um clichê, o autor intervém com novos prompts para adicionar complexidade, num ciclo contínuo de melhoria.
Consistência Visual e Multimídia
A consistência estende-se à representação visual. Com o mercado exigindo cada vez mais materiais promocionais e capas atraentes, autores recorrem a IAs geradoras de imagem. O desafio de manter o rosto do personagem igual em diferentes ilustrações é superado pelo Método SEED (em plataformas como Midjourney) e pela geração Image-to-Image. Ao fixar uma semente matemática ou usar uma imagem base, garante-se que a estrutura facial e o estilo artístico permaneçam constantes, permitindo a criação de graphic novels ou materiais de marketing coerentes.
A Escrita Assistida: O Copiloto Invisível
Durante a fase de redação, a IA opera através de funcionalidades específicas que mimetizam o fluxo de trabalho humano:
| Funcionalidade | Descrição e Benefício | Ferramentas Exemplo |
| Write (Escrever) | Analisa o texto anterior e sugere os próximos parágrafos (aprox. 300 palavras), mantendo o tom e a voz. Ideal para manter o fluxo. | Sudowrite, InfiniteLibrary.ai |
| Expand (Expandir) | Aplica o princípio “Show, Don’t Tell”. Transforma frases simples em descrições sensoriais ricas (cheiros, sons, texturas). | Sudowrite, Writesonic |
| Rewrite (Reescrever) | Atua como um editor de linha, alterando o tom (mais formal, mais ágil), simplificando frases ou mudando o ponto de vista. | Sudowrite, Grammarly |
| Feedback Crítico | Simula um leitor beta ou editor, analisando ritmo, desenvolvimento de personagens e diálogos artificiais instantaneamente. | Sudowrite, Clarice.ai |
É crucial notar a distinção entre ferramentas de Automação (como a InfiniteLibrary.ai, que promete gerar manuscritos inteiros autonomamente) e ferramentas de Aumentação (como o Sudowrite, desenhado para colaborar passo a passo com o humano). O foco da formação profissional atual privilegia a aumentação, onde o controle artístico permanece humano.
Não se apague aos nomes, às plataformas; foca no conceito e pense em criar uma metodologia para cada escritor humano.
Profissionalização e Educação: O Novo Currículo do Escritor
A complexidade destas ferramentas exige um novo tipo de letramento. Programas de formação, como o “Curso Particular de Inteligência Artificial para Escritores” que ofereço, estruturam o conhecimento necessário para o autor do século XXI em módulos estratégicos :
- Fundamentos | Entender a diferença entre IA Horizontal e Vertical e a estratégia de copilotagem.
- Pré-Escrita | Domínio da engenharia de prompts e construção de Story Bibles.
- Desenvolvimento | Uso de ferramentas para manter a Voz do Autor (Style Mimicry) e superar bloqueios.
- Revisão e Edição | Treinamento de Editores IA Personalizados que conhecem as regras gramaticais e estilísticas preferidas do autor.
- Produção Multimídia | Criação autônoma de capas, audiolivros com narração sintética e trailers.
- Publicação e Marketing | Uso de IA para otimização de metadados (SEO para Amazon KDP), tradução automática e gestão de campanhas de marketing.
Este currículo reflete a transição do escritor para um empreendedor criativo total, capaz de gerir todas as facetas de sua obra com auxílio algorítmico.

Editoras
Para as editoras, a Inteligência Artificial não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas um vetor de reestruturação industrial. A tecnologia oferece a promessa de eficiência radical, permitindo que casas editoriais façam mais com menos recursos, mas também impõe desafios jurídicos existenciais que ameaçam o cerne da propriedade intelectual. Cerca de 68% das editoras já acreditam que a IA trará melhorias significativas à produção de conteúdo.
Eficiência Operacional e Redução de Custos
A integração de IA na cadeia de valor editorial tem demonstrado reduções de tempo de produção de até 30% a 40% em projetos reais. A automação incide sobre as tarefas mais repetitivas e onerosas:
- Revisão e Triagem | Ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (NLP) como Grammarly, ProWritingAid e a brasileira Clarice.ai realizam um tipo de limpeza inicial de manuscritos, corrigindo erros gramaticais e sugerindo melhorias de fluidez. Isso libera os editores humanos para focarem na estrutura narrativa e na sensibilidade artística. Algoritmos também são usados para a triagem de originais, filtrando pilhas de submissões com base em critérios de qualidade e alinhamento editorial, acelerando a descoberta de novos talentos. Algo que eu já faço aqui no meu dia-dia e tem dado super certo.
- Design e Conversão | A produção visual de capas e ilustrações é acelerada por IAs generativas de imagem (Midjourney, DALL·E, Leonardo.ai), permitindo a prototipagem rápida de conceitos visuais (para os casos em que a editora prefere o artista gráfico humano, ou seja, o editor usa a IA apenas para fazer o teste de rascunho). A conversão de arquivos para formatos digitais (ePub, MOBI) é automatizada por plataformas como a Automateed, que transformam manuscritos em eBooks formatados em minutos.
- Análise Preditiva de Mercado | A intuição editorial é suplementada por dados. Modelos preditivos analisam históricos de vendas e tendências de redes sociais para sugerir tiragens de impressão ideais (reduzindo encalhe) e prever a recepção emocional de uma obra através da análise de sentimento do texto.
A Revolução da Tradução e a Cauda Longa
Uma das inovações mais disruptivas para o modelo de negócios é o Kindle Translate. Integrada ao ecossistema da Amazon KDP, essa ferramenta de tradução assistida por IA redefine a economia da exportação literária.
Tradicionalmente, traduzir um livro é um processo caro (entre $8.000 e $20.000) e lento (3 a 6 meses), reservado apenas para bestsellers garantidos. O Kindle Translate reduz esse tempo para cerca de 72 horas (para 80.000 palavras) a um custo marginal próximo de zero na fase beta. Isso permite que editoras e autores independentes explorem a Cauda Longa Internacional. Livros de nicho, que jamais pagariam seus custos de tradução no modelo antigo, podem agora ser lançados simultaneamente em espanhol, alemão, francês e outros idiomas. O risco financeiro é eliminado, permitindo testar mercados globais e capturar receitas de micro-audiências dispersas pelo mundo. Eu já havia trado desta mesma questão quando do advento dos eBooks mas acho que o Mercado Editorial não me ouviu.
O Campo de Batalha Jurídico: Direitos Autorais e Uso Justo
A base da revolução da IA — o treinamento de modelos com trilhões de palavras — gerou o maior conflito jurídico da história recente do mercado editorial. Autores e editoras acusam as empresas de tecnologia de roubo em escala industrial, enquanto as Big Techs defendem a inovação.
O cerne da disputa é a doutrina do Fair Use (Uso Justo ou Uso Legítimo). As empresas de IA (OpenAI, Anthropic, Meta, Microsoft) argumentam que o treinamento de seus modelos é transformador: a IA não copia o texto para redistribuí-lo, mas analisa padrões para aprender a linguagem, criando algo novo. Elas comparam esse processo a um estudante humano lendo livros na biblioteca para aprender a escrever.
A luta desdobra-se em casos judiciais paradigmáticos nos EUA, cujas decisões estão moldando a jurisprudência global:
| Caso Judicial | Juiz | Decisão / Situação Atual | Implicação para o Mercado |
| Anthropic (Claude) | William Alsup | Decidiu que o treinamento com obras adquiridas legalmente é Fair Use (transformador). Porém, condenou o uso de “Bibliotecas Sombra” piratas (Books3, LibGen). | Estabelece um precedente perigoso: o uso é permitido se a fonte for legal, mas o uso de pirataria expõe as empresas a multas bilionárias (até $150k por obra). |
| Meta (Llama) | Vince Chhabria | Arquivou a ação de autores (incluindo Sarah Silverman) por falta de prova de dano financeiro concreto. | Alertou que, no futuro, ferramentas que geram “fluxos infinitos” de obras concorrentes podem ser consideradas injustas, mas o dano precisa ser provado. |
| OpenAI (ChatGPT) | N/A | Enfrenta ações da Authors Guild e New York Times. A justiça ordenou a preservação de logs de treinamento e o caso avança para produção de provas. | O caso mais vigiado, pois envolve a alegação de que o ChatGPT pode gerar resumos substitutivos que ferem o mercado original. |
Essa guerra de atrito cria uma insegurança jurídica que deve perdurar até o final da década. Enquanto isso, soluções técnicas como o opt-out (onde autores marcam suas obras para não serem usadas) e acordos de licenciamento direto começam a surgir como paliativos.
Leia mais detalhes sobre a questão dos Direitos Autorais aqui nesse link.

Livrarias
O elo do varejo livreiro enfrenta uma crise existencial exacerbada pela IA. A livraria, tradicionalmente um espaço físico de descoberta, está sendo substituída por interfaces digitais governadas por algoritmos de recomendação, colocando em risco a diversidade bibliográfica e a sobrevivência de negócios independentes e, principalmente, as livrarias físicas de rua caso essas não leve os metadados do seu acervo impresso para as nuvens.
A Hegemonia da Amazon e o Risco de Colapso
A Amazon consolidou um domínio quase absoluto sobre o mercado editorial ocidental através de um ecossistema integrado que une o Kindle Direct Publishing (KDP), a loja Amazon Books e a infraestrutura de nuvem AWS, tudo orquestrado por inteligência artificial.
Minha análise enquanto especialista nesse tema aponta para um risco real de colapso do mercado tradicional devido à canibalização. A IA generativa permite a produção de livros em massa — obras escritas e ilustradas em horas. Esse contexto infelizmente inunda as vitrines digitais com um volume de conteúdo que compete diretamente com obras produzidas tradicionalmente, saturando as categorias e dificultando a visibilidade.
A eficiência algorítmica da Amazon permite uma pressão sobre preços que sufoca a concorrência. Pequenas livrarias e distribuidores não conseguem competir com a logística e a precificação dinâmica da gigante, levando ao fechamento de lojas físicas e ao enfraquecimento da diversidade do ecossistema. A dependência das editoras em relação à infraestrutura da Amazon cria um cenário de estrangulação, onde mudanças unilaterais nos algoritmos ou nas taxas de royalties podem inviabilizar editoras inteiras da noite para o dia.
Bem, isso já estava visível com o adventos dos eBooks, mas vai piorar ainda mais com o uso da IA no ecossistema Amazon. O detalhamento está aqui neste link.
O Algoritmo como Curador e a Censura Privada
A função do livreiro — aquele que recomenda o livro certo para a pessoa certa — foi assumida por sistemas de recomendação baseados em IA. Plataformas como Amazon e Kobo analisam bilhões de pontos de dados (histórico de compras, tempo de leitura, trechos destacados baseados por sua vez nos metadados) para prever o desejo do leitor e personalizar a vitrine.
Embora eficiente para vendas, esse modelo gera o fenômeno da homogeneização do gosto. Os algoritmos são otimizados para engajamento e conversão, tendendo a recomendar o que já é popular ou similar ao que o usuário já consumiu (filter bubbles). Cria-se aqui uma barreira para obras desafiadoras, experimentais ou de vozes minoritárias que não se encaixam nos padrões estatísticos de sucesso. Alerto que, ao controlar a visibilidade, a Amazon exerce uma forma de censura privada ou mediação intelectual, onde o patrimônio cultural fica sujeito aos critérios opacos de uma única corporação.
Novos Modelos: A Livraria Infinita
Em resposta, o mercado busca novos modelos. A impressão sob demanda (POD) ganha força como estratégia para livrarias online manterem catálogos vastos sem o risco financeiro de estoque físico, uma eficiência permitida pela gestão digital de arquivos. O problema é o custo da produção e da logística. Não que as gráficas tenham culpa do custo da logística da entrega um a um; ou seja, a tecnologia permite a produção um a um, mas a logística (sempre atrelada ao antigo chamado Custo Brasil) não permite que o modelo decole.
Futuristicamente, projeta-se a transição da venda unitária para o modelo de Livro como Serviço (assinaturas), evoluindo para o conceito de Biblioteca Infinita. Neste cenário, leitores teriam acesso universal a todo o acervo literário via nuvem, com a remuneração de autores gerida por microtransações em tempo real baseadas no consumo efetivo de páginas, uma infraestrutura que dependerá fundamentalmente de tecnologias como o blockchain para ser justa e transparente.
Eu gosto deste modelo? Mas não se trata do que gostamos, se trata do que a tecnologia nos permite em um contexto de aplicações rodando em nuvens. antes eu dizia que os livros dependeriam apenas das telas, hoje eu seu que existe um custo na infraestrutura tecnológica e impede que novas “Amazon” floreçam.

Leitores
O destino final de toda a cadeia é o leitor. A IA não apenas altera como o livro é produzido ou vendido, mas transforma cognitivamente o ato da leitura. O leitor passivo, que recebe a narrativa, dá lugar a um leitor aumentado, ativo e multimídia. E aqui, caso a cadeira do livro seja quebrada em seu antiquíssimo elo, é que o Mercado Editorial tradicional como conhecemos pode efetivamente desmoronar de vez.
Ask This Book: A Leitura Interrogativa
Uma das inovações mais profundas na experiência de leitura é a funcionalidade Ask This Book (Pergunte a Este Livro), introduzida no ecossistema Kindle. Baseada na tecnologia RAG (Retrieval-Augmented Generation), ela transforma o eBook de um texto estático em um banco de dados dinâmico e conversacional.
O leitor pode, a qualquer momento, destacar um trecho ou acessar um menu para fazer perguntas em linguagem natural à obra. Perguntas como “Qual a relação política entre a família X e Y?” ou “Por que o personagem agiu dessa forma nesta cena?” são respondidas pela IA. O diferencial crucial é a Consciência de Progresso: a IA só utiliza informações disponíveis no texto até a página onde o leitor está, evitando spoilers.
É simplesmente sensacional, principalmente para livros de não ficção: funciona como uma prótese de memória, tornando acessíveis obras de alta complexidade (como romances russos com dezenas de personagens ou ficção científica hard) para leitores que, de outra forma, se sentiriam perdidos. Trata-se de uma ferramenta de acessibilidade cognitiva poderosa, especialmente para leitores com TDAH. No entanto, críticos argumentam que essa mediação remove a fricção cognitiva — o esforço de lembrar e conectar pontos — que é essencial para a imersão profunda e a interpretação pessoal da arte, potencialmente criando leitores passivos que dependem da máquina para entender a história. Ok, isso pode até ser verdade para o caso de romances, ficção, etc., mas convenhamos, é uma ideia excelente para livros de não ficção; como por exemplo um livro sobre Como Jogar Tarô.
Aceleração e Síntese: A Cultura do Resumo
Para o leitor focado em produtividade e não-ficção, a IA oferece velocidade. Aplicativos como o Snackz.ai prometem aumentar a velocidade de absorção de conhecimento em até 10 vezes. A ferramenta gera resumos de alta qualidade que capturam a essência e os insights de livros inteiros em minutos, oferecendo a opção de consumo em texto ou áudio. Me preocupa porque isso pode refletir uma mudança cultural onde o livro é visto cada vez mais como um objeto de dados a ser processado, e menos como uma experiência estética de longa duração.
Leitura Multimodal: Gemini Storybook e Audiolivros
A fronteira entre ler, ver e ouvir está se dissolvendo. O Gemini Storybook do Google revoluciona a leitura infantil ao criar experiências multimodais personalizadas. A plataforma permite integrar texto, imagens geradas por IA e áudio em uma única narrativa. Mais que isso, permite a personalização radical: o desenho de uma criança pode ser digitalizado e transformado, via IA, em uma ilustração estilizada dentro da história, inserindo a criança e sua família como personagens ativos da trama. Se você é pai mas não sabe escrever livros, o Gemini escreve um livro para você ler para o seu livro sob medida. Não vamos entrar aqui em discussões filosóficas sob o impacto disso na sociedades, estou trazendo o que a tecnologia está permitindo que se faça; o que a sociedade fará com isso eu não sei.
Paralelamente, a produção de audiolivros sofre uma democratização massiva. Tecnologias de narração sintética de alta qualidade, como a ElevenLabs, permitem criar audiolivros com vozes indistinguíveis das humanas — incluindo a clonagem licenciada de vozes de celebridades — a uma fração do custo e tempo da gravação em estúdio. Expande-se aqui o acesso à literatura para deficientes visuais e para o público que consome conteúdo em trânsito, consolidando o áudio como um formato primário de leitura.

Concluindo mas ainda sem uma conclusão
A era da Inteligência Artificial Literária, cujo termo ou conceito acabo de criar para que nós do Mercado Editorial fale a mesma língua, já não é uma especulação futurista; é a realidade operacional do presente. A IA infiltrou-se em cada poro da indústria, desde a sinapse inicial de uma ideia na mente de um escritor até a retina do leitor que consome uma história personalizada em uma tela brilhante.
O que observamos é uma transição de papéis. O escritor evolui para um artesão de prompts e curador de narrativas; a editora transforma-se em uma empresa de tecnologia de dados e gestão de propriedade intelectual; a livraria torna-se um algoritmo preditivo; e o leitor assume o controle ativo da exploração textual.
Minhas previsões para as próximas décadas indicam que essa integração apenas se acelerará. Na década de 2030, espera-se que a tecnologia Blockchain atinja a maturidade mainstream como a solução definitiva para a gestão de direitos autorais, permitindo o surgimento de plataformas de publicação descentralizadas (P2P) que conectam autores e leitores diretamente, sem intermediários. Nos anos 2040, a fronteira física pode desaparecer completamente com interfaces cérebro-computador e a IA criando universos literários inteiros em tempo real, personalizados para a psique de cada indivíduo.
Em meio a essa vertigem tecnológica, permanece contudo a figura do Artesão. A IA só vai responder àquilo que nós passarmos para ela. A qualidade da literatura, mesmo na era algorítmica, continua a depender fundamentalmente da sensibilidade, da ética e da profundidade humana. A IA é o motor, mas a humanidade, espera-se, continua sendo o piloto.
