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Mercado editorial é o setor criativo que menos utiliza IA

Relatório britânico aponta apenas 6% de adoção declarada no setor. O dado não revela atraso simples, mas expõe um impasse entre inovação, autoria, direitos autorais e confiança editorial.

A inteligência artificial já se tornou uma ferramenta cotidiana em parte das indústrias criativas. Ela aparece na administração, na pesquisa, no atendimento, no marketing e em etapas de produção de conteúdo. No mercado editorial, porém, o ritmo é bem diferente.

O relatório Thrive 2026, da organização britânica Creative Access, indica que a publicação de livros registrou apenas 6% de adoção declarada de IA — o menor índice entre os setores criativos pesquisados. A informação foi destacada pelo jornal especializado The Bookseller e chama atenção justamente porque livros, autores, leitores e editoras estão no centro do debate global sobre inteligência artificial.

Mas seria apressado concluir que o mercado editorial está simplesmente atrasado. O número parece revelar algo mais profundo: o livro é uma mercadoria cultural cuja matéria-prima é a própria linguagem. E é justamente sobre linguagem que os modelos de IA são treinados, produzem respostas e disputam valor.

Um dado que precisa ser lido com cuidado

O Thrive 2026 não é um censo exclusivo do mercado editorial britânico. Trata-se de uma pesquisa sobre trabalho, carreira, diversidade, inclusão e sustentabilidade nas indústrias criativas, realizada pela Creative Access. A IA surge como uma das transformações que afetam profissionais e empresas.

Assim, os 6% não querem dizer que somente uma pequena parcela dos editores, revisores, escritores ou profissionais de marketing já tenha experimentado ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini ou sistemas especializados. É provável que muitos profissionais usem essas ferramentas informalmente.

O dado indica, sobretudo, uma coisa que já sinto desde que comecei a trabalhar com IA: que a adoção formal e declarada pelo setor editorial ainda é baixa. Ou seja: a IA não foi incorporada, de forma ampla, a políticas internas, processos de produção e estruturas de trabalho das editoras.

Essa diferença é decisiva. Experimentar uma ferramenta para resumir uma reunião não é o mesmo que confiar a ela a avaliação de um original, a preparação de um texto, a tradução de uma obra ou a definição de metadados que afetam a venda de um livro. O mesmo aconteceu com o mercado de livros digitais, quando em vez de abraçar a tecnologia e forçá-la, digamos assim, a trabalhar em seu favor o mercado editorial, em especial o brasileiro aonde sempre atuei, deu de mão beijada para Amazon e outras empresas oportunistas.

Por que o mercado editorial é mais cauteloso?

A primeira razão é jurídica. Editoras trabalham com contratos, licenças, traduções, direitos territoriais, imagens, royalties, obras derivadas e patrimônios autorais que podem atravessar décadas. Qualquer utilização de IA que envolva conteúdo protegido levanta perguntas difíceis: o texto enviado à ferramenta fica armazenado? Pode ser usado para treinamento? Quem responde se houver vazamento, plágio ou reprodução indevida?

A segunda razão é autoral. Uma editora não vende apenas páginas encadernadas ou arquivos digitais. Ela oferece ao leitor uma promessa de procedência: aquele livro foi escrito por alguém, selecionado, editado, revisado e publicado sob responsabilidade identificável. Quando a origem de um texto se torna incerta, essa promessa fica abalada.

A terceira é editorial. Há tarefas que podem ser aceleradas por IA, mas o trabalho de edição não se reduz a corrigir concordância ou cortar repetições. Um bom editor reconhece uma voz, percebe o que ainda está apenas sugerido, identifica problemas de estrutura e ajuda o autor a realizar a intenção mais profunda de uma obra. É um trabalho técnico, mas também interpretativo e humano.

Por fim, existe a ausência de regras claras. Muitas empresas ainda não definiram, por escrito, quais usos de IA são aceitáveis, quais exigem consentimento do autor e quais devem ser proibidos. Sem uma política objetiva, a cautela tende a vencer.

A resistência não significa recusa total

O cenário não aponta necessariamente para uma guerra entre livros e inteligência artificial. Ele mostra que o mercado editorial ainda procura separar usos úteis de usos perigosos.

Há aplicações que podem ser consideradas menos sensíveis: organização de dados, apoio à pesquisa, geração de descrições internas, acessibilidade, classificação inicial de documentos, análise comercial, apoio ao atendimento e elaboração de rotinas administrativas. Mesmo nesses casos, a supervisão humana e a proteção dos dados continuam indispensáveis.

O problema começa quando a IA atravessa a fronteira entre apoio operacional e substituição da atividade criativa ou editorial. Um sistema pode ajudar a localizar inconsistências em um manuscrito; outra coisa é reescrever o estilo de um autor. Pode auxiliar na criação de um audiolivro acessível; outra coisa é reproduzir a voz de um narrador sem autorização. Pode resumir um livro; outra coisa é criar uma imitação capaz de confundir o leitor em uma livraria digital.

A cautela editorial, portanto, não é irracional. Ela é proporcional ao risco. Mas ao mesmo tempo dá tempo de as big techs fazerem o que sempre fazem bem, tomar o mercado criativo editorial de assalto.

Um mercado pressionado dos dois lados

A situação é particularmente complexa porque as editoras são pressionadas em direções opostas. De um lado, há a promessa de eficiência: produzir mais rápido, gastar menos, analisar melhor os dados e competir com novos modelos de publicação. De outro, há autores e entidades de direitos autorais exigindo transparência, remuneração e controle sobre o uso de suas obras no treinamento de modelos.

Nos últimos meses, processos judiciais e acordos envolvendo empresas de IA, autores e grandes editoras tornaram esse dilema ainda mais concreto. Já não se discute apenas uma hipótese futura: discute-se quanto vale uma obra usada sem autorização e quem deve ser remunerado quando um modelo aprende a partir de livros protegidos.

Nesse ambiente, uma adoção precipitada pode prejudicar a reputação de uma editora. Mas a ausência completa de experimentação também pode limitar sua capacidade de compreender as transformações que já estão ocorrendo.

A oportunidade está na IA responsável

O relatório da Creative Access pode ser lido como um aviso, mas também como uma oportunidade. O mercado editorial ainda tem tempo para construir uma adoção mais madura que a de outros setores: com regras transparentes, autorização dos titulares, proteção de dados, identificação dos usos de IA e responsabilidade humana nas decisões finais.

Talvez esse seja o caminho mais interessante. Não usar a inteligência artificial para tornar o livro mais parecido com uma mercadoria automática, mas para liberar tempo e atenção para aquilo que uma editora faz melhor: descobrir autores, aperfeiçoar textos, preservar vozes singulares e aproximar obras de leitores.

A questão, então, não é se o mercado editorial utilizará IA. Ele já está começando a utilizá-la. A verdadeira questão é: quem definirá os limites, os critérios e os benefícios dessa utilização?

No caso dos livros, inovar não pode significar apagar autoria, reduzir a edição a um botão ou tratar a linguagem humana como matéria-prima sem dono. O futuro editorial mais interessante talvez seja justamente aquele em que a tecnologia serve ao livro — e não o contrário.

Fontes | The Bookseller e Creative Access — Thrive Report 2026.

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